Assuntos referentes à Mobilidade urbana e Acessibilidade, além de temas diversos que nos incite a reflexão.
sábado, 18 de outubro de 2014
Com licença: queremos passar
Outro dia fui ao médico e ele me perguntou se eu ando bastante a pé.
- Muito - respondi. -Pois então ande mais ainda.
O conselho é saudável, mas não sei como se possa andar com as calçadas e o leito das ruas cheios de veículos, sem uma beiradinha para o infortunado pedestre. Fomos
definitivamente proscritos da cidade. E não temos para onde ir, pois o progresso
chega ao interior, com seu cortejo de máquinas, desde o automóvel até a carreta,
passando pela moto, a escavadeira, a britadeira e demais bichos mecânicos
incumbidos de obstar o alegre movimento das pernas. Estava pensando na
impraticabilidade da prescrição médica, e me pedir de volta o dinheiro da consulta,
quando meus olhos se abriram à notícia de que vai ser criada a Associação de
Pedestres do Rio de Janeiro, a exemplo da existente em São Paulo.
Aleluia! Se me dessem licença, gostaria de ser o primeiro associado inscrito, mas
receio que, ao se instalar a entidade, não tenha condições de chegar à sede, pelas
dificuldades do trânsito. Serei talvez associado telefônico ou postal, caso não me seja
negado o direito de ir da minha residência até a agência de correio mais próxima.
A associação, dizem-me, editará uma cartilha do pedestre, que me habilite a desfrutar
os direitos da minha condição. Talvez fosse judicioso editar simultaneamente a
cartilha do motorizado, para que esta faça a revisão de conceitos até agora
norteadores de seu comportamento. Assim, pelo menos reivindicaremos nossos
direitos específicos brandindo cartilhas em lugar de palavrões ou argumentos
baculinos. Vencerá quem melhor usar sua cartilha.
Apenas, temo que nós, pedestres, não tenhamos chance de tirar do bolso o folheto que
será a nossa Bíblia, também pedestre, pois a experiência comprova que o motorizado
não dá tempo para o confronto de princípios. Os princípios em geral são nossos, e a
rua é deles, senão a cidade inteira.
Sou ainda forçado a meditar na precariedade de uma associação que, como todas as
outras, reúne indivíduos e não santos de altar. A maioria esmagadora dos indivíduos,
como se sabe, aspira a ser qualquer coisa além do que é. Falamos mal do carro ou do
ônibus se ele ameaça atropelar-nos, mas bem que gostaríamos de ser donos de uma
traquitana ou de uma empresa de transportes. Evidentemente, é diverso o ponto-devista
de quem está dentro do veículo, com relação ao ponto de vista de quem está fora
- e a propriedade cultiva seus valores éticos distintos.
Imagina se eu, segundo secretário da Associação, me cansar da posição inconfortável
de pedestre e disputar o sorteio de um Chevette. E ganhar. Serei um traidor da classe
ou apenas um fraco mental exausto de pleitear uma vaga de transeunte, sempre
recusada?
O pedestre é, afinal, uma espécie que tende a desaparecer, se é que já não desapareceu
de todo, e eu estou aqui briquitando nestas teclas sem me dar conta de que também
sumi do mapa e sou apenas um fantasma do Segundo Reinado, que açambarcava o
espaço infinito de um Brasil sem desenvolvimento, quando o único veículo era o
cavalinho maneiro.
Já estava conformado com a etiqueta social de fantasma, quando leio que a
Associação de Pedestres de São Paulo é constituída de arquitetos, engenheiros,
economistas, pessoas indubitavelmente vivas e atuantes na vida brasileira de hoje, e
que a futura entidade carioca vem sendo organizada por um sociólogo. Então, nem
tudo está perdido, não sou o “revenant” que supunha ser, e devo admitir que ainda
existem pedestres, por sinal qualificados, e dispostos a defender seus direitos, de
maneira organizada e eficiente.
Fora de brincadeira: é criar e tocar pra frente, com ânimo e perseverança. Assim
como as associações de moradores de bairro vão conseguindo formar uma consciência
comunitária, sensibilizando as autoridades, pois se trata de uma força ascendente,
capaz de exercer pressão e comprovar a eficácia do apelo coletivo, uma associação de
pedestres, formando em comunhão de vistas com aquelas, cuidará daquilo que
interessa a todo o complexo urbano e pede tratamento especial.
Vamos trabalhar pela afirmação (ou reafirmação) da existência do pedestre, a mais
antiga qualificação humana do mundo. Da existência e dos direitos que lhe são
próprios, tão simples, tão naturais, e que se condensam num só: o direito de andar, de
ir e vir, previsto em todas as constituições... o mais humilde e o mais desprezado de
todos os direitos do homem. Com licença: queremos passar.
Direito de Ir e Vir
por Carlos Drummond de Andrade
(Publicada em Jornal do Brasil de 9/5/82-Domingo)
sábado, 18 de janeiro de 2014
Não se cale
Uns dizem que o mal do
século é o câncer, outros dizem que é a AIDS, ambas doenças auto-imunes que
atingem bilhões de pessoas à cada ano em todo o mundo. Arrisco dizer com
veemência que o mal do século, o cancro da sociedade é o preconceito, a
discriminação. Um conjunto de sentimentos, pensamentos e atos, que se alastram
sorrateiramente destruindo toda e qualquer possibilidade de compreensão além do
“próprio umbigo”. A impossibilidade de uso do senso crítico (ou o não
desenvolvimento deste), a incapacidade de se colocar no lugar do outro e de
pensar que cada ser é único, possui os mesmos direitos e merece ser respeitado
são sintomas presentes e gritantes neste quadro. Esse mal é alimentado de
diversas formas, muitas vezes imperceptível, outras de forma “escancarada” e
deslavada. Apresenta sintomas universais e indícios facilmente reconhecíveis de
que é retroalimentado de forma constante e intermitente, sendo repassado
facilmente a cada geração. Piadas que colocam algo e/ou alguém (principalmente
um determinado sexo, escolhas específicas de um indivíduo ou portadores de
alguma característica ou doença que se difere da grande maioria da população –
do dito “normal”) em situação vexatória ou de inferioridade podem ser
facilmente observados. Ainda, uso constante e indiscriminado de ideias
pré-concebidas sem qualquer reflexão, teorias acerca de características que
devam estar “obrigatoriamente” presentes em indivíduos de sexo A ou B. Para
este mal, não existe nenhuma medicação milagrosa ou “porção” que faça com que
os seres possam enxergar a realidade além de si mesmos. Células tronco? Nada. À
evolução deste quadro chamamos MACHISMO (a manifestação do primeiro quadro
aumenta enormemente a possibilidade/ presença do segundo). Nesta etapa, o
indivíduo acredita ser uma pessoa “superior” por ser geneticamente considerado
do sexo masculino (o que, em sua cabeça lhe dá o direito de dar a última
palavra, decidir tudo, mandar, bater, espancar, matar). As piadas e idéias
preconceituosas são manifestadas de forma deslavada, em tom de “graça”, seguida
de risos.
Todo e qualquer pessoa, vítima
direta ou indireta dessas manifestações que só trazem ideias pobres,
mesquinhas, desprovidas de senso crítico devem lutar pela não propagação destas
ideias. Esses pensamentos, sentimentos e atos só trazem sofrimento e
desrespeito ao próximo e são retroalimentados a cada pequena “piada”. Não quero
com isso dizer que deves ser a “Madre perfeição em pessoa”, pois de perfeitos
não temos nada. Mas pare, analise, olhe, pense e se coloque no lugar do outro
ao menos por um segundo. Não tem graça nenhuma colocar pessoas em situação de
descaso e inferioridade. Desconstrua! A si mesmo, aos “pré-conceitos” que
recebeste deste que vieste ao mundo, à todo e qualquer pensamento ou ato
recebido e perpetuado sem questionamentos. A realidade não é composta somente
da SUA realidade. O mundo é imenso, diverso, múltiplo e rico de significações,
contextos e interpretações distintas. A diversidade, as características que
fazem com que cada ser seja único é aprendizado puro, pedra bruta a ser
lapidada e descoberta por cada um de nós em contato com os outros. Não seja um
mero expectador que aceita isso. Pense, reflita. Recicle-se e, acima de tudo,
não se cale! Plante em si e ao seu redor, extermine este mal que se alastra
sorrateiramente. No seu atuar, na sua fala, nos seus gestos. Cada um pode, se
quiser, encontrar o seu jeito de fazer isto.
sábado, 11 de janeiro de 2014
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